
Como a Privalia conseguiu crescer – mesmo em meio à crise
Varejista online espanhola aproveitou as freadas econômicas para combinar crescimento com lucro
Os anos de 2013 e 2014 não foram os mais comemorados entre os empresários e executivos brasileiros. Muito provavelmente porque foram anos em que a economia não cresceu vertiginosamente e numa proporção-quase-chinesamente-absurda como nos períodos anteriores. No entanto, houve quem comemorasse cada freada na economia brasileira, como a varejista online espanhola Privalia.
Isso porque a loja virtual vende roupas e acessórios com descontos – seu catálogo conta com mais de 800 marcas – e aproveita os lotes de mercadorias que estão encalhadas nos estoques de empresas de moda para revender esses produtos com até 70% de desconto. Nem precisa dizer que os consumidores amam esse tipo de pechincha. Em 2014, a Privalia conseguiu aumentar 19% o faturamento, para cerca de 400 milhões de reais. Brasileiro curte tanto um outlet de roupa de marca que os clientes do país já representam um terço da receita global da empresa.
Mas como eles conseguiram lucrar tanto, mesmo em períodos de economia mais ‘retraída’? Pois bem: varejistas online brasileiros precisam investir muito em marketing, para ter um diferencial, além de dispenderem muitos gastos com entregas, porque o cliente quer receber os produtos que comprou pra ontem. A Privalia, por ter começado como um esquema de dropshipping, corta bastante esse tipo de gasto – normalmente, os produtos vendidos vão direto do depósito dos fornecedores para o consumidor. Mesmo que a entrega demore muito mais do que a média das lojas online brasileiras – chega a 28 dias –, a empresa tem muito menos custos logísticos (já que não possui estoques físicos) e, bem, brasileiro adora tanto comprar um louis vuitton barateza que espera o tempo que for.
O pulo do gato da Privalia é o fato de que, para existir, depende de fornecedores que tenham itens encalhados no estoque. E esse foi o grande benefício dos momentos “difíceis” na economia brasileira nos últimos anos. No entanto, com a persistência dos tempos difíceis para as grifes, as próprias empresas de moda já estão se preparando para anos mais complicados e essa adaptação requer cortes na produção, o que pode influenciar bastante o modelo de negócios da Privalia (já que bem menos itens ficam encalhados em estoques).
Em alguns países da Europa, a varejista espanhola já sentiu alguma dificuldade. Para que isso não se repita no Brasil, eles vêm testando adaptações no modelo de negócios. Entre as alternativas, estão a ampliação de um centro de distribuição, que ajuda a diminuir o prazo de entrega e a venda de produtos sob encomenda, mesmo que isso fuja um pouco da estratégia original de desova de estoques. Isso tudo vai aproximando a Privalia cada vez mais das tradicionais varejistas online brasileiras – que, inclusive, por sua vez, estão investindo cada vez mais em outlets e sites de liquidações. É bem possível que, no fim, esse modelo tão rentável para a Privalia acabe por se tornar um pouco inviável. Ao que parece, a única coisa que deve durar para sempre é o gosto do brasileiro por pechinchas de grife.